Breve sermão pregado na manhã de sexta-feira, 1º de Janeiro de 1892 – Por Charles Haddon Spurgeon
Para um pequeno grupo de amigos e sua esposa Susannah. Foi sua última pregação em vida, antes de seu falecimento, em 31 de Janeiro de 1892, em Menton, Sul da França, onde estava hospedado.

Atravessando o umbral do ano novo nessa hora, olhamos para adiante e, o que é que vemos? Ainda que pudéssemos conseguir um telescópio que nos permitisse ver o final do ano, teríamos sabedoria para usá-lo? Acho que não. Desconhecemos os eventos que nos esperam: da vida ou a morte, nossa ou de nossos amigos, ou das mudanças de posição, de enfermidade ou a saúde. Que grande misericórdia é que essas coisas estejam ocultas para nós! Se víssemos antecipadamente nossas mais seletas bênçãos, elas perderiam seu frescor e sua doçura, enquanto impacientemente as aguardássemos.
A antecipação se tornaria amarga, se converteria em desânimo, e a familiaridade geraria desprezo. Se pudéssemos ver antecipadamente nossas tribulações, nos preocuparíamos por elas muito antes que efetivamente viessem, e nesse desassossego perderíamos o aproveitamento de nossas bênçãos presentes. A grande misericórdia estendeu um véu entre nós e o futuro, e o deixou dependurado lá.
Ainda assim, nem tudo está oculto. Vemos com claridade algumas coisas. Digo: ‘nós’, porém, quero dizer aqueles cujos olhos foram abertos, pois não é qualquer pessoa que pode enxergar no sentido mais verdadeiro. Uma dama disse ao Sr. Turner: ‘Olhei com frequência esse panorama, mas nunca vi o que você incorporou em seu quadro’. O grande artista simplesmente lhe respondeu: ‘Não desejaria poder vê-lo’? Olhando ao futuro com o olho da fé, os crentes podem ver muitas coisas que estão ocultas para os que não possuem fé. Permitam-me dizer-lhes em algumas palavras o que eu enxergo quando examino para o novo ano.
Vejo uma estrada construída desde este primeiro de Janeiro de 1892 ao primeiro de Janeiro de 1893. Vejo um caminho projetado pelo conhecimento antecipado e a predestinação de Deus. Nada sobre o futuro é deixado ao azar, nem a queda de um pardal, nem a queda de um cabelo são deixados ao fortuito, antes bem, todos os eventos da vida estão arranjados e assinalados. Não só cada volta do caminho está assinalada no mapa divino, como também cada pedra da rota, cada gota do orvalho matutino e toda névoa noturna que cai sobre a erva que cresce junto ao caminho.
Não vamos cruzar um deserto sem pisadas; o Senhor ordenou nossa senda em Sua infalível sabedoria e infinito amor. ‘Os passos de um homem bom são confirmados pelo Senhor, e deleita-se no Seu caminho”. (Salmo 37:23).
Vejo, a seguir, um Guia fornecido, como nosso companheiro ao longo do caminho A Ele dizemos de boa vontade: “Guiar-me-ás com o Teu conselho” (Salmo 73:24). Ele espera para ir conosco através de cada segmento do caminho. ‘O Senhor, pois, é aquele que vai adiante de ti; Ele será contigo (Deuteronômio 31:8). Não fomos deixados para que passemos pela vida como se fosse um deserto solitário, um lugar de dragões e corujas, pois Jesus disse: ‘Não os deixarei órfãos; voltarei para vós” (João 14:18).
Ainda que perdêssemos pai e mãe, e os amigos mais queridos, há Alguém que veste nossa natureza, e que nunca se sairá de nosso lado. Alguém semelhante ao Filho do Homem ainda está trilhando os caminhos vitais dos corações crentes, e cada crente verdadeiro sai do deserto apoiando-se sobre o Amado. Sentimos a presença do Senhor Jesus inclusive agora, nessa sala, onde dois ou três estão reunidos em Seu nome; e confio que a experimentaremos ao longo de todos os meses do ano, seja que se trate da estação do canto dos pássaros, ou na estação dos frutos maduros, ou nos escuros meses quando os blocos de gelo congelados parecem feitos de ferro.
Nessa Riviera, deveríamos dar-nos conta, sem tanto esforço, da presença de nosso Senhor, porque o campo se parece muito a “tua terra, ó Emanuel” (Isaias 8:8). Aqui está a terra do azeite de oliva, dos figos e dos ramos de Escol. Junto a esse mar azul, caminhou e escalou por essas colinas rochosas. Porém, seja aqui, ou em qualquer outra parte, esperemos que ELE permaneça conosco, para fazer com que esse ano seja verdadeiramente ‘um ano de nosso Senhor’ (Isaias 61:2).
Junto ao caminho e ao Guia, percebo muito claramente, graças ao olho da fé, a força requerida para a viagem designada. Ao longo de toda a distância do ano, temos que encontrar pousadas onde possamos descansar e tomar refrigério, e logo prosseguir em nosso caminho cantando: “restaura a minh’alma” (Salmo 23:3). Teremos a fortaleza suficiente, mas nenhuma além, e essa força virá quando seja requerida. Quando os santos imaginam que possuem força sobrando, se convertem em pecadores, e estão aptos a ter seus cabelos cortados pelos filisteus. O Senhor do caminho ministrará aos peregrinos suficientes suprimentos para a viagem, mas Ele pode não achar sensato sobrecarregá-los com fundos supérfluos.
O Deus todo suficiente não lhes falhará com aqueles que confiam Nele. Quando chegarmos ao lugar para carregar o fardo, chegaremos ao lugar para receber a força. Se agradar ao Senhor multiplicar nossos problemas de um para dez, ele aumentará nossa força na mesma proporção. O Senhor ainda diz a cada crente: ‘A tua força seja como os teus dias’ (Deuteronômio 33:25). Você não sente ter ainda a graça que necessita para morrer: e daí? Você ainda não está morrendo. Enquanto você tem que enfrentar os negócios e o dever da vida, espere em Deus a graça que essas coisas precisam: e quando a vida esteja se esvaindo e seu único pensamento for sobre desembarcar na costa Eterna, então olhe para Deus, teu Salvador, pela graça da morte no tempo da morte. Podemos esperar uma onda de força divina quando a força humana estiver falhando, e uma concessão de energia contínua conforme a necessidade diária o necessite. Nossas velas serão avivadas no tanto que precisem arder. Nossa presente debilidade não deve tentar-nos a limitar ao Santo de Israel.
Há uma hospedaria em cada passo dos Alpes da vida, e uma ponte que cruza cada rio da tribulação que atravessa nosso caminho rumo à Cidade Celestial. Os santos anjos que nos guardam são tão numerosos como os anjos caídos que nos tentam. Nunca teremos uma necessidade para a qual nosso Pai não houvesse previsto nenhum recurso.
Eu vejo, muito claramente, um poder que governa todas as coisas que ocorrem no caminho que trilhamos. Vejo um alambique no qual são transformadas todas as coisas. “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito”. (Romanos 8:28).
Vejo uma mão que opera maravilhas, que converte para nós às espadas da enfermidade em arados de correção e as lanças da tribulação em ganchos de poda para disciplina. Graças a essa habilidade divina, as coisas amargas se tornam doces e os venenos são convertidos em remédios. “nada vos fará dano algum” (Lucas 10:19), e essa é uma promessa demasiadamente forte para uma fé frágil, mas a plena segurança descobre que ela é verdadeira. Já que Deus é por nós, quem poderia estar contra nós? Que felicidade é ver Jeová mesmo como nosso estandarte, a Deus mesmo conosco como nosso Capitão! Sigamos adiante no Ano Novo, pois “nenhum mal te sucederá” (Salmo 90:10).
Mais uma coisa que é a essência do brilho: esse ano confiamos que veremos Deus glorificado por nós e em nós. Se cumprirmos nosso fim mais importante, alcançaremos nosso prazer mais excelso. É o deleite do coração renovado pensar que Deus pode obter glória de tais criaturas pobres como nós. “Deus é luz” (1 João 1:5).
Não podemos aumentar Seu brilho, mas podemos atuar como refletores que, ainda que não tenham nenhuma luz própria, quando o sol brilha sobre eles refletem seus raios, e os enviam aonde não teriam chegado sem tal reflexo. Quando o Senhor brilha em nós, projetamos essa luz nos lugares escuros e faremos que os que estão submersos na sombra da morte, se alegrem em Jesus nosso Senhor.
Esperamos que Deus tenha sido de alguma maneira glorificado em alguns de nós durante o ano passado, porém confiamos que será glorificado por nós muito mais no ano que agora começa. Estaremos contentes de glorificar a Deus ativa ou passivamente.
Queremos que seja de tal maneira que quando a história de nossa vida seja escrita, qualquer um que a leia não nos considere como ‘homens que se fizeram a si mesmos, mas sim como obras de Deus, em quem Sua graça foi engrandecida. Os homens não podem ver a argila em nós, mas sim nas mãos do Oleiro. De um disseram: “é um excelente pregador”, mas de outro, falaram: “Nunca notamos como prega, mas sentimos que Deus é grande”.
Desejamos que nossa vida inteira seja um sacrifício, um altar de incenso que fumega continuamente com um doce perfume para o Altíssimo. Ó, ser levado ao longo do ano sobre as asas do louvor a Deus: subir de ano em ano, e elevar em cada ascensão um cântico mais excelso e, no entanto, mais humilde para o Deus de nossa vida! A visão de uma vida repleta de louvor jamais acabará, mas continuará ao longo da eternidade.
De salmo em salmo e de aleluia a aleluia, subiremos o monte do Senhor até chegar ao Lugar Santíssimo, onde, com rostos velados, nos curvaremos diante da Majestade Divina na bem-aventurança da adoração sem fim.
Ao longo desse ano, que o Senhor seja com você. Amém!
